29 de jan. de 2013

Contando almas

Minha avó contava almas.
Todo dia levantava da cama
passava pela cozinha arrastando os chinelos surrados
e vinha contando...
...cinco   seis   sete   oito....
Caminhava até a varanda
no fundo da casa onde
silenciosa e cuidadosamente
esparramava seu corpo na velha cadeira de balanço.
Continuava a contar...
... quinze   dezesseis dezessete...
Eu, ainda bem pequeno,
ficava intrigado e perguntava
o que era aquilo que tanto ela contava
todo santo dia...
Ela respondia: coisa de gente grande! Se te contar você se assusta.
Eu? Imagina!!
Eu já pilotava helicóptero no alto da goiabeira!
Porque iria me assustar?
Alguns dias ela ficava calada
sem contar nada
apenas olhando meu avô plantando alfaces, rúculas, couves,
colhendo tomates, esparramando esterco de cavalo na terra,
preparando canteiros..
Ela, da sua cadeira de espreguiçar,
eu, no alto do meu helicóptero camuflado no meio da goiabeira!
Minha avó contava almas,
eu, bicho de goiabas!

11 de dez. de 2012

Bendito espírito da poesia
toma meu corpo
sou teu cavalo
Escreve por minhas mãos
tira de mim o tormento
a angústia
as falas presas.
Apressa-te!
Meu tempo é curto!

Zénérso - 11.12.2012 - 19:13 h

Cão


Sigo teus passos como um cão faminto
e se sinto teu cheiro sigo teus passos
como um cão cego e se não te vejo
sigo teus passos como um cão preso
Se apressa o passo em fuga
sigo tua pressa como presa fácil
Se te acautelas e me enfrenta
te cerco e te espreito como um cão
um lobo uma hiena
que espera
e espreita
e assegura que a fuga
não será fácil
e apressa em afiar a presa
como um cão faminto

enquanto o tempo não passa
como um cachorro quente!

Zénérso - 11.12.2012 - 19:11 h

20 de jun. de 2012

Calor

Olhei teus olhos
e vi um brilho
intenso
achei que era amor
mas era reflexo
era o sol

Olhei teu corpo
e o vi úmido
sôfrego
achei que era amor
mas era o sol
era calor

encostei em teu corpo
e senti um tremor
faltou-me fôlego
achei que era tesão
que era amor
mas era febre
era calor...


e.d. - btu 20/06/2012 -10:39

Confortavelmente entorpecido

Eu bem te disse
que talvez fosse melhor
se você partisse
Eu bem te disse
que eu era pura esquisitice
Que talvez fosse melhor
se você esquecesse essa idiotice
Eu bem te disse
que talvez fosse melhor
que você me esquecesse
Que você preenchesse teu coração com outra sandice
- com alguém diferente, eu disse -
Eu te avisei eu te disse
Mas você achou que isso
era pura basbaquice
que talvez
se você insistisse
meu disse-me-disse seria só invencionice
Eu bem te disse
que se você se apaixonasse
eu me instalaria no teu coração
ocupando do sótão ao porão
e que talvez nunca mais saísse
Eu bem te disse
que eu não seria amável
que eu não era adorável
que talvez fosse preferível
um cara de outro nível
Agora me instalei aqui nesse canto
e está úmido e está quente
e eu estou tão confortavelmente entorpecido
que será difícil, quase impossível
desfazer bem feito o mal feito
não terá outro jeito
talvez… se eu te traísse….
e.d. - btu - 20/06/2012 - 01:05
Revisão.
Vazio.
Lixo.
Mudanças.
Novo sentido.
Novo.
Começo.
recomeço.
Vazio que se preenche com vida!

6 de jun. de 2010

Vôo a dois

Vou a dois
 ou três lugares
ainda
antes do fim.

Vôo a dois
ou a três
dependendo
de quem
quer ir comigo

Vou antes do fim
e vôo sozinho
se depender de mim

Vôo antes do fim
e vou
se depender
sozinho



24 de fev. de 2010

Feliz

Queria tanto encontrar você
queria que me visse
estou feliz
     leve
e queria que você me visse assim.

Te procurei
     e procuro
por ai.
Vasculhei a cidade
te procurei na internet
não há vestígios teus no google
nenhum sinal.
Queria que você me visse.
Demorou um pouco
foi muito difícil chegar até aqui
mas aprendi.
Deixei de lado alguns sonhos tolos
não almejo mais a fama
não quero a mulher escultural
nem sequer olho pros carros reluzentes
que passam por aí
(e até acho tolice isso de tê-los).
Olho o sol todo dia pela manhã
     ou olho a chuva
aprecio o frio
     mesmo que intenso
ainda tenho aquele velho saco de dormir
ainda durmo nu e me lembro do calor do teu corpo
ainda tenho aquela velha mania de dormir molhado
quando o calor insuportável nos deixava grudados.

Mas não tenho mais aquela pressa
de chegar a lugar nenhum.

Aprendi
     demorou um bocado chegar até aqui
mas aprendi

Descobri que a mesma pedra do caminho
pode ser a pedra que ajuda a travessia das correntezas
aprendi que a força das correntezas
que nos arrasta pra longe daquilo que queríamos
é a mesma que nos leva pra lugares novos
     e o novo é bom.

Aprendi que chorar pode ser ruim
mas é bom quando lava nossa alma
quando nos esgota e nos renova

Aprendi que sorrir
(sem exageros)
é o melhor remédio pra nossas doenças
que a maior doença trazemos na mente
e pode ser a semente de todo mal que nos consome.

Aprendi a ouvir os pássaros
eles ainda estão por aí
aprendi que devemos soltá-los
que a vida deles anda muito difícil
mas eles preferem enfrentá-la livres.

Aprendi a ser livre
     e isso é bom.
Ainda tenho algum chão pela fente
ainda tenho muito o que aprender
ainda quero muito te ver
e poder te contar
tudo isso.

Mais do que isso
queria que me visse assim

zé - 24/02/10 - 00:05


13 de fev. de 2010

A hora

Olhava teus olhos
e via um brilho azul.
Chegava mais perto
e os olhos ficavam verdes
o brilho ficava verde.
Mais perto ainda
os olhos semicerravam
a boca entreabria
pálpebras trêmulas
respiração ofegante
lábios sedentos
coração apressado

eu não via os olhos

eu não via a hora...

zé - 13/02/10 - 00:49


12 de fev. de 2010

Cantos

Em algum canto
por aí
perdi a poesia.

Não sei se alguém achou.
E se achou
não sei se acha.
serve pr'alguma coisa?

Procuro por aí
e acho cacos...
cantos!

zé - 12/02/10 - 22:24


mínima

sons
suados
susurros
seios
suaves
sinuoso
sexo
somos
sôfregos

saciados...

silêncio...

cigarro...

silêncio.
sorriso.
sim!

...sons...

zé - 12/02/10 - 22:12


Ainda, os sonhos

Acordei assustado
molhado de suor
com o coração batendo feito louco
quase saindo pela boca.
Sabia que estava ao meu lado
tinha te visto, te tocado e te amado
até segundos antes...
Ainda sentia teu cheiro! Teu gosto! Teu sexo!
Olhei para o lado e a cama estava quente mas vazia...
Levantei-me, confuso,
afinal teu cheiro em mim era tão intenso que não podia ser sonho.
Te procurei pela casa e,
claro,
não te encontrei andando pelo escuro da noite.
Acendi todas as luzes
vasculhei cada centímetro quadrado
procurei por um mínimo sinal que você
tivesse deixado...
um bilhete
uma peça de roupa jogada em algum canto
um batom usado
algum traço teu.
Em vão.
Foi sonho!
Claro! Eu nem te conheço!

zé - 12/02/10 - 11:23


11 de fev. de 2010

Sonhos

Reviro-me em meus sonhos
e já não sei mais quem sou.
Vaguei por aí,
e nem me lembro mais se em algum momento
algo ficou claro.
Se em algum momento soube de mim mesmo.
Olho pra trás e me assusto com meus erros.
Olho no espelho e me vejo

velho

Não sei ainda dá tempo de fazer alguma coisa melhor.
Fiz três filhos e os eduquei da melhor forma possível
embora boa parte do tempo me embriagasse
por medo de mim mesmo.

Escrevi versos, sonhei músicas, gritei berros confusos
como de resto foi tudo até aqui.
Reviro-me na cama e
quente
encontro-me só.
A porta entreaberta deixa passar uma réstia de luz
e uma brisa que vem da janela da sala.
Mais nada.
Imagino que você pudesse entrar por ela
Se aconchegar ao meu lado e
mudar minha vida.

No escuro penso em mim
e sonho!
Ainda sonho.

zé - 11/02/10 - 00:13


15 de jan. de 2010

Esquecimentos

Passo o dia todo escrevendo versos.
Escrevo e apago cada um deles em minha mente.
E esqueço.
E me lembro parcialmente
E os reescrevo.
E são diferentes.
E não são mais belos como eram da primeira vez
Me pergunto sempre porque ainda não adquiri o hábito de carregar comigo
caneta lápis papel bloco de anotações caderno...
Um gravador, que seja.
Pareceria louco, por aí, falando versos para uma caixinha eletrônica.
Quem entenderia?
E o que importa?
Preciso me adaptar às minhas torrentes de criação
que não têm hora,
não têm lugar,
não têm fonte adequada de inspiração.
Não tenho musas.
Mas como gostaria de tê-las!
Escrevo versos o dia todo
em qualquer lugar e hora
e os apago.
Esqueço.

zé - 23:04 - 15/01/2010


A lista de Pepe

Ontem morreu o "hamstinho" do Pepe...
Confesso que tive uma parcela enorme de culpa,
já que não vi o bichinho implorando por água.
E comida.
Tirando o peso que paira sobre os meus ombros,
afinal eu matei o hamster de fome e sede e sede e fome,
Pepe agora coleciona mortes:
"Vou contar todo mundo que já morreu:
minha vó que me deu aquele carrinho de presente,
a pombinha,
o passarinho,
o Quico,
o Tatá e o hamstinho...
Eu também quero ir morar no céu!"

Meu Deus! Pepe já tem uma lista enorme de mortes pra contar!

zé - 22:58 - 15/01/2010


12 de jan. de 2010

Logo Ali

Na verdade nem queria estar por aqui
ou por aí
queria ter ficado logo ali
fumando um ou dois baseados
enquanto o povo passava apressado.
Pra quê?
Chegamos mais ou menos juntos nos mesmos lugares
fedemos os mesmo fedores
apodrecemos!
Queria ter ficado logo ali
fumando um ou dois
baseado que nada mesmo mudará na face da terra
Os mares talvez encham um pouco
talvez fiquem menos salgados

(Não chegando aqui nos meus pés...)

Queria ter ficado logo ali
largado
embaixo daquelas árvores
Trindade
admirando a nudez de Cacau

(só quem viu sabe do que digo!)

Queria ter ficado por ali
comendo peixe afogado.
Apressado pra quê?

zé - 18:27 - 12/01/2010


11 de jan. de 2010

Pernas pra que te quero!

Ah! que pernas lindas tinha aquela menina.
Tem. Já que não se foi.
Quem se foi fui eu.
Pernas tão lindas numa menina tão diferente!
Anotações feita a caneta bic no meio da coxa
só por falta de papel.
Fico eu aqui, velho e tolo,
lembrando de outros tempos
outras pernas.
Fui.
Foi o tempo.

zé - 16:31 - 11/01/2010


Retrato 3x4

Olho para um retrato velho
meu
e percebo que menti a vida toda.
menti tanto
e tão bem
que essa foi a minha verdade.

zé - 16:26 - 11/01/2010


Já que agora sou penada alma,
psicografo
usando como cavalo o corpo que vagueia pela terra
sem eira nem beira
ignorando a própria sorte
sem nenhuma noção do destino que lhe foi reservado.
Me aproveito do corpo desalmado
desavisado
e vou ficando por aqui mais um pouco.

zé - 16:24 - 11/01/2010


A Hora

Eu morri!
Morri em algum lugar da cidade
ontem à noite.
Não sei a hora exata.
Não sei o local.
Como até agora a morte ainda não foi anunciada
pelas marias funerárias,
meu corpo está por aí, vagando
E cagando pra história dos velares
e velórios e chorares
Vaga sem saber da hora precisa da morte.
Vaga sem sorte.
Sigo alma penada!

zé - 16:18 - 11/01/10